Há certo tempo fiz um post para a minha mãe, e hoje resolvi falar de Carlos Gama, 71 anos, meu pai. Falar da minha relação com meu pai é engraçada. Durante toda a minha vida vi ele como um irmão bem mais velho, sempre disposto a me ajudar a acobertar minhas travessuras e até incentivá-las. E como toda convivência de "irmãos" as brigas eram frequentes. Sempre por bobagens e assim como todas as minhas “brigas” nunca duravam mais do que meia hora. Os pedidos de desculpas aconteciam sempre antes dos dois pegarem no sono. Regra da casa.
Pra quem não sabe, meu pai é contador, trabalhador e desde os seus 16 anos já tinha uma grande responsabilidade com a família. "Seu Gama" está sempre disposto a aprender, viajando pros quatro cantos do mundo e escutando atento tudo que as pessoas dizem. Meu pai gosta de aprender. Sempre foi bom pra beber, isso ele também me ensinou muito bem kkk. Adora uma novidade. Lembro da primeira vez que, depois de muita insistência, levei ele ao festival de cinema de Ouro Preto, mostrei o informativo que eu havia escrito e assisti junto com ele Buena Vista Social Club, do Wim Wenders. A sessão terminou e saímos os dois faceiros. Eu soltando o verbo sobre o diretor alemão e ele só ouvindo. Gosto disso. E gosto mais ainda quando estou ouvindo música e ele passa pela porta e fala: "Hoje você ta que ta!".
Mais as lembranças, não são so de coisas boas. Também passamos por muitos momentos difíceis, quando minha mãe teve derrame, a volta repentina de uma viagem durante muito tempo aguardada, a decisão de mudar de cidade para agarrar as oportunidades que a vida me deu. Ou como na pior situação que passei na minha vida, apesar dele não estar ao meu lado só conseguia pensar na minha mãe e nele. Os conselhos, sempre tentando mostrar a dialética da vida para que pudesse tomar a melhor decisão.
De dezembro pra cá, a saúde dele ficou frágil e as idas e vindas do hospital aumentaram. O meu homem de ferro, começou a dar sinais que estava precisando ainda mais dos seus filhos. Por mais que saiba a lógica da vida, vê-lo também em um leito me deixou perplexo. Só queria uma chance de fazer tudo o que não fiz, e tudo o que sempre tive vontade de dizer. Ainda bem que Deus, pela segunda vez me deu a chance que pedi (a primeira foi com a minha mãe) me deu essa oportunidade que muitas pessoas não tem. Com isso, minhas atitudes também sofreram algumas alterações, passei a dar uma maior atenção aos meus pais lhe dedicando mais tempo, quero que eles desfrutem o maximo da minha companhia, por que ao morar longe deles sei bem o que é precisar de um ombro, de um colo nos nossos momentos de maior dificuldade, E com isso percebi que não precisava ser a pessoa egocentrica que muitas vezes demonstrava ser, por ser independente, porque trabalho, ganho meu dinheiro. Hoje mais do que nunca, faço questão de dividir tudo com eles, meu tempo, meus problemas, minhas alegrias, meus conflitos, e como isso é bom!
Essa nova fase, aumentou também a nossa amizade. Entre um exame e outro, trocamos ideias de vida, reflexões, o nosso Galo que sempre foi um grande elo de ligação entre a gente. Começamos a nos aproximar ainda mais através da literatura, música e cinema. Também existe períodos de silêncio. Mas não aqueles castradores, onde a gente não sabe o que faz. Silêncio porque não precisa dizer. Tá tudo ali, no olhar.
Hoje, apesar de todos os perrengues que passamos juntos, sinto que ele não o vejo como mais meu irmão e sim meu pai. Uma palavrinha tão curtinha, a forma como sempre o chamei mais que só agora tenho a certeza do seu real significado.
Carlos Gama, obrigado por tudo mesmo!
2 comentários:
Filipe! Esse texto me emocionou profundamente, e eu não tô brincando, tô com os olhos cheios d'água aqui. Sei o quanto tu ficastes maus no final do ano passado!
Que bom que voce esta tendo essa chance!
Aproveite
Isso, guri !!! Escreve. Diz. Fala. Testemunha Passa. Repassa. Espalha. Repete. Faz de tudo Para que ele ouça. Muitas vezes. Antes que ele se vá. E tu te arrependas De não tê-lo feito.
Postar um comentário